“Só existe liberdade onde você pode dizer não. Então, eu sempre disse o não que era necessário”.
Nascido há 74 anos, Antonio Carlos Belchior parecia ter um encontro marcado com a história. Ela, infelizmente, não compareceu. Ele se transformou em Belchior para cantar esse desencontro.
É por isso que o “nunca mais” entoado em “Velha roupa colorida” parece doer ainda mais hoje. Sua obra era como promessa de presente que se faz a uma criança, cujo cumprimento é sempre adiado. Mas toda aquela esperança virou um retrato borrado no sonho. “Porque eu trabalho com a utopia”, diria ele em entrevista à Revista Música.
Suas músicas centram-se na dialética entre a arte e as camadas da dura realidade. Era nisso que Belchior apostava, seja para notar o fracasso dessa tentativa seja para delimitar o espaço no qual é possível, pelo menos, com precaução, sonhar.
A erudição universalista se aliava à elaboração local. É notável que logo no seu primeiro disco, Mote e glosa, de 1971, vemos um Belchior dividido entre a exuberância formal de músicas de inspirações concretistas (“Máquina”, “Bebelo”) e temas regionais (a cabralina “Senhor dono da casa”).
Mas lá já estava a crítica social da visão do mundo patriarcal de “Na hora do almoço”, música que levou Belchior a ganhar o Festival Universitário de 1971. O poeta não resistia ao trabalho de citação: Donne Pessoa, Dante, Poe, João Cabral, os versos bíblicos. Um dos seus últimos trabalhos foi um projeto baseado nas poesias de Drummond, do qual tanto apropriou a temática do medo (“Pequeno mapa do tempo”, “Populus”). Mas o que sempre impressiona em Belchior é a visão poética exibida em imagens e metáforas explosivas acompanhadas pela voz latin lover anasalada e retumbante.
Essas imagens que povoam suas músicas carregam um mundo frágil, confidencial. Dificilmente encontramos essa mistura de astúcia imagética e rigor detalhista.
Belchior transformou a música em arte plástica onde cada verso é uma pincelada que, com um simples toque, pode misturar o objeto e a paisagem. No fundo, ele deixou-se viver nesse quadro onde se ouve aquela música clássica numa calma noite de sábado: “nada, nada como viver de repente”.
@sergiano.silva


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