Hoje mais conhecido como o grande nome da história dos conceitos, Reinhart Koselleck foi criticado por Habermas na década de 1960 por ser considerado um porta-voz de Carl Schmitt.
Considerado hoje o mais famoso jurista que legitimou o regime nazista, Schmitt é conhecido pela ideia de que o Führer era o único guardião da Constituição.
No pós-Guerra Schmitt ficou proibido de lecionar e publicar, além de ficar sob custódia. Isso não impediu que, ao longo dos anos 1950, sua casa em Plettenberg fosse um local de peregrinação de estudantes. Koselleck foi um deles!
Em 2019 veio a público uma série de cartas trocadas entre o historiador e o jurista. Na primeira carta, de 11 de janeiro de 1953, já é possível perceber certa intimidade respeitável de K. “Caro Professor, muito obrigado pela hospitalidade com a qual o Senhor me recebeu em sua casa!”.
O que levou Koselleck a se aproximar de um homem que poucos anos antes era legitimador do regime nazista?
Em 1953 o estudante estava redigindo sua tese de doutorado, intitulada Crítica e Crise, razão pela qual ele foi procurar o intelectual estudioso do Absolutismo. “Me enche de agradecimento saber que o Senhor tenha adentrado tão profundamente no meu trabalho”, continua ele em sua carta.
Na tese, Koselleck faz uma análise peculiar do período do Iluminismo: “o tema fundamental [é] do processo moral com que a burguesia usou o Estado”, escreve em carta de 2 de novembro daquele ano. Schmitt pesquisou o tema a partir de Hobbes, indicando que, à época do Absolutismo, o Estado esvaziou a moral da política, deixando aquela reservada à esfera privada. O Iluminismo teria crescido graças a esse moralismo privado.
Essa concepção desconfiada do Iluminismo não foi bem vista por Habermas. Por isso, este insinuou que o trabalho diz menos sobre Koselleck e mais sobre a visão do jurista a respeito da contemporaneidade.
Por que tanta afinidade entre Koselleck e “seu devotado” Schmitt? Será porque, durante a Segunda Guerra, ele se voluntariou para servir à Wehrmacht (1941) ou porque antes havia se juntado à juventude hitlerista? Eis um exemplo de crítica e crise no âmbito intelectual.
Por @sergiano.silva


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