Sérgio Buarque de Holanda é famoso por seus estudos historiográficos. Formado na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, ele iniciou sua carreira escrevendo crítica literária.


Em 1929, viaja para Berlim na missão de ser correspondente do O Jornal. Em dezembro, consegue marcar uma entrevista com o laureado do Prêmio Nobel daquele ano, um alemão.

É Thomas Mann. O autor de A montanha Mágica estava então lotado de compromissos, razão de Sérgio Buarque temer a não realização da entrevista. Mas ele recebe o jornalista com hospitalidade: “acho impossível dispensar o prazer de conversar com um brasileiro”.

Segundo Antonio Candido, em Berlim Sérgio Buarque se alegrava em frequentar o teatro de Piscator, em se aprofundar na obra de Rilke, Stefan George, além de Max Weber.

Daí que ele estava familiarizado com o literato Mann. Tanto que sabia de certa notícia sobre uma possível origem brasileira do autor, embora desacreditada por historiadores da literatura. Sua dúvida mal foi pronunciada. Mann prosseguiu:

“O Brasil faz-me evocar, na verdade, alguns instantes deliciosos de minha infância e de minha mocidade. Recordo-me de que minha mãe, que era brasileira, e que nasceu em uma fazenda de café e ou de açúcar, não me recordo bem, entretinha-me frequentemente sobre a beleza da baía de Guanabara...”

A mãe de Mann de fato nascera no Brasil, em 1851, filha de uma rica mestiça com um fazendeiro alemão, dono de escravos: chamava-se Júlia da Silva Bruhns.

A seu entrevistador Mann fala com orgulho do sangue brasileiro, enfatizando que há aí a razão de seu estilo literário: “creio que a essa origem latina e brasileira devo certa clareza do estilo... a influência mais decisiva sobre minha obra resulta do sangue brasileiro que herdei de minha mãe.”

Em Raízes do Brasil, Buarque de Holanda, baseado em Weber, elabora tipos ideias para interpretar a história brasileira: o trabalhador e o aventureiro, o ladrilhador e o semeador, além do homem cordial. Sendo assim, o que ele veria de brasileiro em Mann?

Entre o brasileiríssimo Silva e o teutônico Mann, alguma coisa de raízes do Brasil torna Thomas Mann um quase-brasileiro agraciado pelo Nobel.

Por @sergiano.silva 

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